Ligue-se a nós

Opinião

O Cancelamento Liberta

“José Rodrigues dos Santos não exprimiu uma opinião, aquelas palavras não eram suas. Foi também descontextualizado, mas desta vez apenas se ouviram os ataques”.

Publicado

em

Opinião de Telmo Filipe Marques
Foto: DR

“Temos de matar o homem branco”.

A frase de Mamadou Ba, que citava Frantz Fanon, descontextualizada para proveito de alguns e pela ignorância de outros. Mamadou fez uma alegoria, referindo-se apenas a matar o pendor assassino, colonial e racista do homem branco.

Se tais características são ainda relevantes ou se sequer existem em Portugal é discutível, mas quem se debateu pela contextualização do argumento – pela verdade – apenas merece aprovação.

José Rodrigues dos Santos, em entrevista à RTP, demonstrou o pensamento decadente nazi, retratando o exercício mental necessário à justificação das atrocidades que foram os campos de concentração do terceiro reich: apenas a crença num “bem maior” justificava que gasear judeus fosse um ato humanitário. José Rodrigues dos Santos não exprimiu uma opinião, aquelas palavras não eram suas. Foi também descontextualizado, mas desta vez apenas se ouviram os ataques. No lugar dos justiceiros, silêncio.

“Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, faz-nos um relato sobre o julgamento de Adolf Eichmann. No livro, para além do famoso argumento de defesa de Eichmann (que “simplesmente fez o seu trabalho” e “cumpriu a lei”) é possível encontrar uma passagem sobre um memorando onde se podia ler o controverso argumento citado por José Rodrigues dos Santos. A história vingou a pessoa.

Neste ponto acho importante frisar o subtítulo do livro: “Um relato sobre a banalidade do mal”. Estas são palavras que descrevem quão facilmente perigosa é a capacidade de habituação das pessoas à maldade, simplesmente por estarem constantemente rodeados dela. Alguns, como Eichmann, tornaram-se dormentes à maldade em nome de um “bem maior”; outros, como Werner Reich (conhecido sobrevivente de Auschwitz), nunca deixaram de a ver mas acabaram por a aceitar, vítimas da rotina a que foram sujeitos.

Esta ideia do “bem maior”, e o exercício mental necessário para o justificar, não nasceu nem morreu (infelizmente) com os nazis. O apontar de dedo seletivo, a memória seletiva, as contradições publicamente apregoadas nas redes sociais, os movimentos alternativos pela verdade: tudo sintomas do mesmo mal.

O “bem maior” já não mata tanto, mas ainda cancela e destrói. Em nome de um bem maior aplaude-se a “morte” do homem branco mas cancelam-se factos históricos; aplaude-se a interseccionalidade mas cancela-se a defesa do indivíduo; aplaude-se a redenção… mas também a ruína. Não se pode colocar em risco o bem maior, a utopia, as ilusões de quem não viveu o que defende. Consoante o alvo, aplaude-se tudo e o seu contrário – ginástica mental surpreendente – uma espécie de doublethink contemporâneo.

Por enquanto, de um lado aqueles que já não vêem mal nenhum, e do outro os que nunca deixaram de o ver, mas se habituaram. É imperativo não perder o alento, não deixemos de denunciar inverdades, a falta de coerência e a hipocrisia.

Coordenador para a Juventude do Núcleo de Leiria do partido Iniciativa Liberal. Natural de Abrantes, com 30 anos, é professor e engenheiro informático.

POPULARES