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Opinião

Bom regresso às aulas

«Muitas vezes, durante a vida, deparei-me com casos de pessoas que desenvolveram traumas, ansiedades, sofreram bullying só por serem considerados “diferentes”».

Publicado

em

Thainá Braz LGBTI Leiria
Foto: NL

O regresso às aulas traz consigo uma quantidade de sentimentos e sensações diferentes, só experimentadas por quem vive na pele cada uma destas sensações. Todos esses sentimentos são derivados da incerteza do que o futuro poderá trazer, sendo só uma coisa certa: o recomeço.

Recomeçar significa, também, reavaliar: a nós mesmos e as relações que construímos. Todos nós trazemos connosco uma bagagem diferente de experiências, responsável por moldar a forma que sentimos e reagimos a esse regresso. Em qualquer lugar de nossa sociedade há regras de convivência e formas de interação social. Quanto mais diferente do que é considerado normal (e normal neste caso é no sentido de seguir alguma norma pré-estabelecida) mais sofre-se por sair do “padrão” e a tendência é vivenciar mais experiências traumáticas, geradas a partir do choque entre a normalidade homogeneizante e as peculiaridades individuais de cada um. Esta realidade não é muito diferente na sociedade fora de uma escola, contudo, entre os 7 e os 18 anos muitas vezes as coisas são sentidas e/ou faladas de forma mais intensa. Afinal, são nos anos iniciais de vida que nossos valores, pensamentos, personalidades e atitudes vão sendo construídos.

Membros da comunidade LGBTQ+ frequentemente encontram desafios quando se trata de situações sociais dependentes do crivo dos demais, na sua maioria pessoas héteros e cis, na escola e fora dela. Muitas vezes, durante a vida, deparei-me com casos de pessoas que desenvolveram traumas, ansiedades, sofreram bullying só por serem considerados “diferentes”, e o mais comum para essas pessoas é esconder quem são, como um mecanismo de defesa que desenvolvemos para evitar as mais diversas formas de violência perpetuadas num sistema opressor. Nós, LGBTQ+, ainda somos treinados pela “vida” (e aqui vida significa a rede e os sistemas que nos são impostos em todos os níveis de vivência) a fingir que somos cis, heterossexuais, “normais”, e a omitir factos que nos apontam como não-conformes. Por exemplo: situações em que estão todos a conhecerem se e falam das/dos namoradas/namorados, e como é de costume, chega a tão temida pergunta “e o teu namorado?” e a indesejada resposta “é namorada”. Numa tentativa de evitar, a resposta mais fácil – segura – é a omissão. Isso cria um problema: porque o ambiente não é seguro, a maioria da nossa comunidade tem medo de mostrar quem realmente é. Consequentemente, surgem a invisibilização e o isolamento, que são fatores que indiscutivelmente afetam a saúde mental de qualquer pessoa. Se hoje já se nota os efeitos que a quarentena e o distanciamento social provocaram na sociedade nestes poucos meses, imaginemos uma vida baseada num regime de “lockdown”.

É inato do ser humano a busca por aceitação, o pertencer. Falar sobre o tema e haver representatividade é imprescindível em todos os níveis do contexto escolar. Crescer a saber o que significa pertencer a uma minoria social é importante para desenvolver o amor próprio. Nós, muitas vezes, lidamos com casos de falta de confiança porque vive-se uma vida inteira de não aceitação, e o resultado disso é a vergonha. Quando falamos de orgulho LGBT, falamos exatamente de seguir a contracorrente da vergonha. Esse é um processo que nos acompanha sempre. Celebrar o que se é não é fácil quando passamos uma vida a tentar ser aceitos. Se orgulhar daquilo que nos é ensinado a esconder é a revolução da vida de qualquer LGBTQ+. Falar abertamente sobre as diversidades sexual e de género deve ser um assunto tratato por todos os ambientes escolares, no sentido de construir mentes que saibam ouvir, mudar, aceitar, debater e, acima de tudo, aprender.

 

O artigo de opinião é da autoria de Thainá Braz e Nany Aguiar, membros do Movimento LGBTI Leiria.

Membro do Movimento LGBTI Leiria.

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