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Agentes culturais fazem vigília em Leiria contra “apoios vergonhosos”

Para garantir a subsistência, o bailarino Bruno Alves foi trabalhar para as obras. “Até é uma atividade que me satisfaz, mas não é a profissão que escolhi”.

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Vigília Cultura Leiria
Foto: Facebook Frédéric Da Cruz Pires

Contra “apoios vergonhosos” e “medidas fracas, escassas e dececionantes”, agentes culturais participam hoje em Leiria na Vigília pela Cultura, que procura um futuro para o setor em que “há artistas a passar fome”.

No centro da cidade, com vista para o Castelo de Leiria, às 9h desta manhã marcavam presença na vigília um ator, um bailarino, um músico e um editor. Até ao fim do dia é esperada a participação de 35 agentes culturais.

A reivindicar “condições de trabalho” e “uma carreira profissional”, Frédéric da Cruz Pires disse à agência Lusa considerar os apoios para a cultura anunciados pelo Governo “vergonhosos”, com medidas “fracas, escassas e dececionantes”.

“Qual é o futuro? O que é que isto nos reserva? Hoje estamos aqui. Se for necessário, amanhã estamos aqui. E se for necessário, para a semana estamos aqui. Alguma coisa tem de ser feita para a sobrevivência do setor, para o bem-estar dos profissionais e para a continuidade da cultura no território nacional”, afirma o ator.

Em Leiria e na zona centro, quem vive da cultura “já estava mal antes da pandemia”. Agora tudo se complicou: “Há artistas a passar fome, porque não podem fazer rigorosamente nada. Tem de haver novas medidas, mais coerentes. Um milhão e 700 mil não é nada para um setor imenso”.

Para garantir a subsistência, o bailarino Bruno Alves foi trabalhar para as obras. “Até é uma atividade que me satisfaz, mas não é a profissão que escolhi”, conta, esperando que a crise que revelou “a precariedade brutal dos artistas e todo o setor” leva a “uma mudança efetiva” e “um enquadramento legal que regule a atividade cultural”.

“Os artistas estão todos numa condição de quase extrema pobreza”, sublinha o bailarino da Companhia Olga Roriz.

A vida também se complicou para David Teles Ferreira, que entretanto se juntou à vigília. O ator e declamador ficou “sem rendimentos” e lembra todos os que estão em situação semelhante: “Artistas não são apenas aqueles que dão a cara. São também os técnicos e todos os que lhes dão condições para darem a cara”, lembra David Teles Ferreira. Por isso, importa “não deixar morrer as pessoas de fome”.

Para Hugo Ferreira, fundador da editora Omnichord Records, “há debilidades muito antigas e muito trabalho precário” num setor onde falta “profissionalização” e “espírito empresarial”.

Os modelos de financiamento e apoios deram sempre a mensagem errada, defende, porque nunca favoreceram “estruturas com funcionários a contrato em relação às que se baseiam em trabalho precário”.

Alterar isso pode ser a solução mas, para já, há que garantir que a cultura não desapareça em Portugal: “Não vale a pena só investir em aviação, em banca, darmos 3,5 milhões para um grupo de comunicação enquanto todo o setor cultural tem um milhão. Há que repensar o paradigma e pensar: queremos que a nossa sociedade estupidifique ou queremos continuar a construir uma vida melhor para nós e para os nossos filhos?”.

Hugo Ferreira defende que o Governo precisa de mais “transparência e sensibilidade”: “Não estou a lutar para pedir o que quer que seja para a minha instituição. Se o paradigma não for alterado rapidamente, este setor vai definhar e as pessoas só vão dar por isso quando não for mais possível recuperá-lo”.

A vigília acontece em mais de dez cidades portuguesas. Entre as reivindicações dos profissionais da cultura contam-se a criação do estatuto do artista e a aprovação de um fundo de emergência para os que na cultura e nas artes, ficaram sem rendimentos e sem apoios devido à paralisação provocada pelo combate à pandemia.

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