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Opinião

A Câmara Municipal de Leiria hesitou

“Porque a autarquia não ficou de imediato ao lado da população e do ambiente assim que soube que a Australis ia fazer o furo na Bajouca?”

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em

Opinião Rui Prudêncio
Foto: NL

Em setembro de 2015 a Direção Geral de Energia e Geologia atribuiu à empresa Australis Oil & Gas (Australis) duas concessões de exploração de gás natural que basicamente abrangiam toda a região de Leiria e partes do distrito de Coimbra e de Santarém. Em 2018 a empresa começou a fazer os preparativos para as primeiras prospeções, adqurindo e delimitando áreas de sondagem. A prospeção no entanto teria ainda de estar sujeita à realização do Estudo de Impacto Ambiental. Um dos furos de prospecção localizava-se na freguesia da Bajouca, concelho de Leiria. Assim que as idas e vindas dos técnicos ao terreno faziam perceber o que se iria passar na Bajouca (até aí estava tudo no silêncio da Administração Central) movimentos ecologistas e população local dinamizaram uma forte luta contra a prospeção. Recordo aqui algumas das ações de protesto mais relevantes:

Ainda em dezembro de 2018 a população da Bajouca, reunida em sessão de esclarecimento, declarava resistência máxima à prospeção de gás. Depois, o protesto Camp in Gás realizado por uma plataforma de associações e movimentos ecologistas entre 17 a 20 de julho de 2019 envolveu mais de 400 pessoas e uma simbólica ocupação do terreno do furo. A 3 de setembro realizou-se o protesto do Movimento do Centro contra a Exploração de Gás em frente aos Paços do Concelho. Nesta ocasião os manifestantes exigiram que a Câmara Municipal de Leiria assumisse uma posição inequívoca contra a prospeção. A essa data o executivo municipal ainda aguardava pelas conclusões do Estudo de Impacto Ambiental para se posicionar a favor ou contra a prospeção. Na campanha eleitoral para as legislativas de 2019, a 1 de outubro, a Bajouca aparece nos telejornais nacionais graças ao PAN que trouxe os jornalistas na sua comitiva para dar a conhecer ao país o atentado ambiental em curso nesta freguesia. De seguida, a 11 de novembro, a população com o apoio da Junta de Freguesia e da Assembleia de Freguesia da Bajouca protestaram contra a prospeção.

Nessa ocasião, quando tudo já era bem claro aos olhos de todos, a Câmara Municipal de Leiria ainda declarava “Estamos a trabalhar com o coração mas também com a razão” que é como quem diz vamos primeiro esperar o resultado do estudo de impacto ambiental e só depois tomamos posição. Finalmente a 17 de dezembro de 2019 o executivo municipal aprovou unanimemente uma moção contra a prospeção de gás na Bajouca, assumindo assim uma posição oficial sobre o tema. O episódio final da luta pelo fim da prospeção aconteceu este mês de setembro com a renúncia aos contratos de exploração de hidrocarbonetos por parte da empresa Australis.

A cronologia dos acontecimentos demonstra que a Câmara Municipal de Leiria não esteve desde a primeira hora com a população da Bajouca. O executivo municipal ainda hesitou, titubeante, aguardou pelo resultado do Estudo de Impacto Ambiental, como se fosse realmente necessário um estudo para concluir que era de todo impossível conciliar os interreses da população, do combate às alterações climáticas e da Australis.

Neste tempo de emergência climática global requer-se da parte dos governos (centrais, regionais e locais) posicionamentos e ações expeditas, determinadas e consequentes. A lentidão do poder político em agir tem sido um dos maiores entraves ao combate às alterações climáticas. A Câmara Municipal de Leiria levou mais de um ano e meio a concluir o óbvio. Porque a autarquia não ficou de imediato ao lado da população e do ambiente assim que soube que a Australis ia fazer o furo na Bajouca?

Os únicos e verdadeiros heróis desta luta foram os bajouquences que nunca desistiram de lutar, mesmo sozinhos.

Comissário político e assessor da Distrital de Leiria do PAN, tem 45 anos e é natural de Armação de Pêra, em Silves.

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