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Opinião

25 de Novembro: perdoa-nos!

“Perdoa-nos porque, infelizmente, a cada dia que passa vamos, cada vez mais, sentir falta dos valores que nos deste a 25 de Novembro de 1975 e que nós não soubemos perpetuar!”

Publicado

em

João Antunes Santos Opinião
Foto: Notícias de Leiria

Aviso prévio:
Não quero com este texto contribuir para aquela discussãozinha sobre o que foi mais importante: o 25 de Abril de 74 ou o 25 de Novembro de 75. Acredito que essa discussão exotérica se revele muito excitante para alguns, o que não é de todo o meu caso.
Pouco ou nada interessa dizer “o meu 25 de Abril é maior que o teu 25 de Novembro” ou, ao invés, dizer “o meu 25 de Novembro é maior que o teu 25 de Abril”.
Interessa sim perceber e aceitar-se o óbvio: sem 25 de Abril não teria existido 25 de Novembro, e sem 25 de Novembro não se teria cumprido os desígnios do 25 de Abril: liberdade e democracia.

Posto isto:
25 de novembro: perdoa-nos!
Perdoa-nos porque durante décadas olhámos para ti com desprezo e com a sobranceria de quem achou que mais não tinhas sido do que um fogacho irrelevante para a afirmação da liberdade e a construção da democracia em Portugal.

Perdoa-nos porque alguns dos teus mentores – leia-se partidos democráticos, onde naturalmente se inclui o Partido Socialista – rapidamente te rejeitaram e te deixaram órfão, porque se tornou mais empolgante e mais interessante eleitoralmente perfilhar o teu irmão mais velho, o 25 de Abril. Felizmente que para memória futura (e atual!), Mário Soares, fundador do PS, na sua autobiografia escreveu “O 25 de Novembro de 1975 foi extremamente importante para Portugal. Foi o virar de uma página, que podia ter sido trágica, e a restituição da Revolução de Abril à sua pureza inicial: a democracia pluralista de tipo ocidental, num Estado de Direito, civilista, respeitador dos Direitos Humanos e com uma dimensão social, marcada pela igualdade de oportunidades.”

Perdoa-nos porque ignorámos que tu em Novembro de 75 evitaste que aquilo que se conseguiu a 25 de Abril de 74 – que tendo origem militar rapidamente teve a adesão popular, porque Portugal queria-se efetivamente libertar de décadas de ditadura –, não fosse rapidamente revertido, já que havia quem não quisesse que Abril significasse liberdade e democracia… Havia quem quisesse que Abril significasse o fim de um regime ditatorial e o início de um regime totalitário, fazendo de Portugal uma espécie de lanterna vermelha da Europa, ou até satélite de Moscovo.

Perdoa-nos porque não percebemos o que nos trouxeste. E mais do que teres ratificado e confirmado aquela que era a vontade de todo um povo, ou seja, a vontade de viver em liberdade e de viver em democracia, trouxeste-nos também valores de moderação e civilização.
Perdoa-nos porque se te recordássemos e respeitássemos hoje não estaríamos a regredir naquilo que foi o que de melhor conquistámos nas últimas décadas: a tolerância, o respeito, a dignidade da pessoa humana, o combate à discriminação, o combate aos radicalismos e extremismos, o combate ao racismo e à xenofobia… Porque, não se pode dizer na sociedade que construímos em Portugal nos últimos anos não existiam episódios de discriminação ou racismo (nem nos cabe quantificar se eram muitos ou poucos esses episódios, já que bastava existir um episódio para ser muito!), mas tínhamos todos uma certeza: não era uma tendência crescente. Hoje já não podemos dizer o mesmo!

Perdoa-nos porque se não te tivéssemos esquecido hoje saberíamos todos que demagogia e populismo não se combate com demagogia e populismo, combate-se sim com tolerância, moderação, determinação e credibilidade.

Perdoa-nos porque, infelizmente, a cada dia que passa vamos, cada vez mais, sentir falta dos valores que nos deste a 25 de Novembro de 1975 e que nós não soubemos perpetuar!

Presidente da JSD Distrital de Leiria. Natural de Vila Cã, Pombal, tem 29 anos e é advogado.

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